quarta-feira, 1 de janeiro de 2014


Amor de camarote


Ainda era cedo, a manhã se fizera presente há pouco, o sol mal começara a esparramar sua luz. Uma música acordou a dona da casa: Normalista, na voz de Nelson Gonçalves: “vestida de azul e branco, trazendo um sorriso franco num rostinho encantador, minha linda normalista rapidamente conquista meu coração sem amor...”
A música tão antiga faz recordar tempos passados – há muito passados – porque, como a maioria das pessoas de “certa idade”, aquela mulher teve sua fase de Nelson Gonçalves e gostava das músicas do cantor que falava dos dramas de nossas vidas com uma sensibilidade que só se compara hoje às letras de Chico Buarque quando traduz sentimentos femininos.
Movida pela curiosidade, abre então a janela de seu quarto, que dá para a rua, e vê um carro parado à frente da casa da vizinha que se separara do marido há pouco e que, de quebra, tem quatro filhos, em idades que vão de alguns meses a cinco anos. É uma cena bastante insólita: um carro verde, modelo antigo, “serenata” àquela hora da manhã e, ainda mais, com música de um cantor que hoje pouca gente ouve.
Mas o que causa estranheza é o motorista do carro: o próprio ex da vizinha, um homem ainda jovem, recostado ao volante, no rosto o sofrimento. É um rapaz bonito, e foi sempre muito disputado pelas mulheres. Está ali, olhos súplices e, nesse momento, toda a dor do mundo parece refletir-se no seu semblante.
De repente, um sorriso ilumina seu olhar. É ela que desce as escadas, entra no carro e lhe diz algumas palavras. Ele assente, faz movimentos de cabeça como a dizer que concorda com tudo, sem perder, é claro, aquele sorriso iluminado que só o amor consegue estampar no rosto dos apaixonados.
Um beijo sela algum pacto que fizeram. Saem do carro e, de mãos dadas, caminham para a casa que volta a ser deles.
A mulher que assistia à cena sai da janela e logo passa a se ocupar das obrigações do seu dia com uma incômoda sensação de que, nalgum momento de sua história, perdera o trem da vida. Um suspiro fundo quase que traduz o seu desalento e o desencanto de sua existência.
Diante das panelas, tenta dissipar pensamentos que insistem em ser traduzidos. Bobagem pensar nisso agora...
Imaculada

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