Pedacinho do céu
O
telefone toca bem cedo, acordando a família: uma voz desconhecida, vinda de
longe, anuncia indiferente: – “Encontrei uma criança para ser adotada. Uma
menina. Quando a senhora pode vir conhecê-la?” Ao impacto do acontecimento –
tão maravilhoso quanto inesperado – o dia adquire tonalidades mais claras. Uma
espécie de calor aquece o coração da mulher que ouve a notícia tão ansiosamente
desejada. Aquele momento havia sido sonhado desde sempre: o momento de ter como
parte de sua família uma criança que não tivesse nascido de sua barriga.
A
explicação para esse desejo-obsessão não se originava de fatos reais, não havia
como justificar tal ansiedade de adoção: mãe de três filhos, uma jornada de
trabalho às vezes extenuante, dentro e fora de casa, separada do marido,
morando longe da cidade onde viviam os pais. Todo o seu lado racional lhe dizia
que era loucura descabida enfrentar essa situação. No entanto, passional,
impulsiva, com a cabeça tendo as regras ditadas pelo coração, ei-la disposta a
ir até o fim na busca dessa criatura que haveria de completar o quadro de sua
família.
Como
num flashback, lembra-se do dia em
que vendo TV soubera da existência daquela casa onde crianças esperavam a vez
de serem escolhidas em adoção. Segundo o repórter, bastaria ligar. E foi o que
ela fez. No entanto, a pessoa que atendeu sua ligação mostrou-se estranhamente
reticente. Sim, claro, a senhora pode vir quando quiser. Sim, temos crianças
para serem adotadas. Não, a diretora não está. A senhora pode ligar amanhã?
Esse
amanhã demorou muito para chegar. Mais uma ligação e mais outra e mais outras. “A
diretora está, por favor?” –
“Sim, eu soube
de sua intenção de vir aqui para
conhecer nossas crianças.”
–
“Não, eu não quero conhecê-las. Quero adotar uma delas. Quando posso ir aí?
Amanhã?” – “Está bem, amanhã. Aguardaremos sua visita.”
Com
os filhos, para quem a presença de um futuro irmão era uma realidade com a qual
conviviam há muito tempo, com eles partiu o projeto de mãe adotiva. Foi uma
viagem longa, cheia de expectativas em relação ao encontro com aquele ser que
todos queriam conhecer. Alguém que nunca haviam visto, não sabiam se seria um
menino ou uma menina, mas – caminhos
misteriosos da emoção – já amavam.
A
chegada à casa foi decepcionante. O que viam não correspondeu à imagem passada
pela TV: crianças mal cuidadas, mal alimentadas, mal cheirosas, parecendo uma
raça inferior de seres humanos. Restos de gente, sem brilho no olhar. Crianças
que provavelmente nunca foram tocadas com gestos de amor.
A
atendente (uma delas) e não a diretora fazia as “honras da casa”. Infelizmente,
segundo ela, não seria possível resolver nada naquele dia, nem no seguinte, nem
nos próximos, porque haveria uma reunião do Conselho Tutelar do Menor para
decidir quais crianças poderiam ser adotadas. Enquanto falava, mostrava as
“dependências” da instituição, tentando esconder alguma sujeira mais à vista,
espantando as moscas que insistiam em pousar na comida espalhada pelas mesas da
cozinha. A ironia da situação é o nome dessa casa para abrigar menores:
“Pedacinho do céu”.
Desiludida,
desanimada, recostada ao umbral da porta de um dos quartos, a mulher ouvia
aquele lenga-lenga que mais parecia sons originados de um filme surrealista. Ao
voltar-se sobre si mesma, seu olhar recai num bebê ali no berço mais próximo de
onde está: uma criança esquálida, inerte, quase translúcida. Seu coração sofre,
porque num átimo de tempo conclui que é por este bebê que empreendeu essa
viagem, é por ele que está ali, é ele a criança esperada durante todos esses
anos. Chama-se André, tem um ano, e foi deixado ali pela mãe que não tem
condições de cuidar de sua saúde frágil, e que o visita raramente. Sofre essa
criança, sofre quem deseja ter esse menino como filho, sofre talvez a própria
funcionária ao dizer que, infelizmente, o Andrezinho não pode ser adotado,
porque a mãe biológica não permite e a lei respeita sempre a vontade dessa mãe.
A
volta para casa foi bastante dolorosa. Se antes havia um vazio feito de
expectativa e de esperança, agora esse vazio era feito de saudade, da ausência
de quem nem esteve presente.
Embora
a vida tenha voltado aparentemente à normalidade, lutando pelo que passou a
considerar mais que um direito, agora um dever, a mulher ainda tentou conseguir
a guarda do bebê. Alegou condição financeira estável, um lar organizado, vida
baseada em rígidos padrões morais e, acima de tudo, a possibilidade de ser a
família de uma criança praticamente abandonada. A diretora, irredutível no seu
argumento de que a lei deve ser cumprida, fez com que o sonho de ter o menino
naquela casa deixasse de existir.
Deixar
de existir... foi o que aconteceu meses depois ao André. Ao saber da notícia,
um grande abalo aconteceu no coração da família.
Agora,
depois de desligar o telefone, o sobressalto: e se acontecer de novo, se for
outro engano? E se tiver que passar novamente pela mesma dor? Uma troca de
olhares com os filhos lhe dá a resposta: sim, eles irão de novo ao encontro
dessa outra criança que precisa deles e de quem eles também precisam.
E
recomeçam a viagem...