quinta-feira, 30 de agosto de 2018


Pedacinho do céu 

O telefone toca bem cedo, acordando a família: uma voz desconhecida, vinda de longe, anuncia indiferente: – “Encontrei uma criança para ser adotada. Uma menina. Quando a senhora pode vir conhecê-la?” Ao impacto do acontecimento – tão maravilhoso quanto inesperado – o dia adquire tonalidades mais claras. Uma espécie de calor aquece o coração da mulher que ouve a notícia tão ansiosamente desejada. Aquele momento havia sido sonhado desde sempre: o momento de ter como parte de sua família uma criança que não tivesse nascido de sua barriga. 

A explicação para esse desejo-obsessão não se originava de fatos reais, não havia como justificar tal ansiedade de adoção: mãe de três filhos, uma jornada de trabalho às vezes extenuante, dentro e fora de casa, separada do marido, morando longe da cidade onde viviam os pais. Todo o seu lado racional lhe dizia que era loucura descabida enfrentar essa situação. No entanto, passional, impulsiva, com a cabeça tendo as regras ditadas pelo coração, ei-la disposta a ir até o fim na busca dessa criatura que haveria de completar o quadro de sua família.

Como num flashback, lembra-se do dia em que vendo TV soubera da existência daquela casa onde crianças esperavam a vez de serem escolhidas em adoção. Segundo o repórter, bastaria ligar. E foi o que ela fez. No entanto, a pessoa que atendeu sua ligação mostrou-se estranhamente reticente. Sim, claro, a senhora pode vir quando quiser. Sim, temos crianças para serem adotadas. Não, a diretora não está. A senhora pode ligar amanhã?

Esse amanhã demorou muito para chegar. Mais uma ligação e mais outra e mais outras. “A diretora está, por  favor?”    “Sim,  eu  soube  de sua  intenção de vir aqui  para  conhecer nossas crianças.”
– “Não, eu não quero conhecê-las. Quero adotar uma delas. Quando posso ir aí? Amanhã?” – “Está bem, amanhã. Aguardaremos sua visita.”

Com os filhos, para quem a presença de um futuro irmão era uma realidade com a qual conviviam há muito tempo, com eles partiu o projeto de mãe adotiva. Foi uma viagem longa, cheia de expectativas em relação ao encontro com aquele ser que todos queriam conhecer. Alguém que nunca haviam visto, não sabiam se seria um menino ou uma menina, mas –  caminhos misteriosos da emoção – já amavam.

A chegada à casa foi decepcionante. O que viam não correspondeu à imagem passada pela TV: crianças mal cuidadas, mal alimentadas, mal cheirosas, parecendo uma raça inferior de seres humanos. Restos de gente, sem brilho no olhar. Crianças que provavelmente nunca foram tocadas com gestos de amor.

A atendente (uma delas) e não a diretora fazia as “honras da casa”. Infelizmente, segundo ela, não seria possível resolver nada naquele dia, nem no seguinte, nem nos próximos, porque haveria uma reunião do Conselho Tutelar do Menor para decidir quais crianças poderiam ser adotadas. Enquanto falava, mostrava as “dependências” da instituição, tentando esconder alguma sujeira mais à vista, espantando as moscas que insistiam em pousar na comida espalhada pelas mesas da cozinha. A ironia da situação é o nome dessa casa para abrigar menores: “Pedacinho do céu”.

Desiludida, desanimada, recostada ao umbral da porta de um dos quartos, a mulher ouvia aquele lenga-lenga que mais parecia sons originados de um filme surrealista. Ao voltar-se sobre si mesma, seu olhar recai num bebê ali no berço mais próximo de onde está: uma criança esquálida, inerte, quase translúcida. Seu coração sofre, porque num átimo de tempo conclui que é por este bebê que empreendeu essa viagem, é por ele que está ali, é ele a criança esperada durante todos esses anos. Chama-se André, tem um ano, e foi deixado ali pela mãe que não tem condições de cuidar de sua saúde frágil, e que o visita raramente. Sofre essa criança, sofre quem deseja ter esse menino como filho, sofre talvez a própria funcionária ao dizer que, infelizmente, o Andrezinho não pode ser adotado, porque a mãe biológica não permite e a lei respeita sempre a vontade dessa mãe.

A volta para casa foi bastante dolorosa. Se antes havia um vazio feito de expectativa e de esperança, agora esse vazio era feito de saudade, da ausência de quem nem esteve presente.

Embora a vida tenha voltado aparentemente à normalidade, lutando pelo que passou a considerar mais que um direito, agora um dever, a mulher ainda tentou conseguir a guarda do bebê. Alegou condição financeira estável, um lar organizado, vida baseada em rígidos padrões morais e, acima de tudo, a possibilidade de ser a família de uma criança praticamente abandonada. A diretora, irredutível no seu argumento de que a lei deve ser cumprida, fez com que o sonho de ter o menino naquela casa deixasse de existir.

Deixar de existir... foi o que aconteceu meses depois ao André. Ao saber da notícia, um grande abalo aconteceu no coração da família.

Agora, depois de desligar o telefone, o sobressalto: e se acontecer de novo, se for outro engano? E se tiver que passar novamente pela mesma dor? Uma troca de olhares com os filhos lhe dá a resposta: sim, eles irão de novo ao encontro dessa outra criança que precisa deles e de quem eles também precisam.

E recomeçam a viagem...

Travestindo a realidade 

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(Imagem Internet)

Gregor era um indivíduo na acepção mais correta do vocábulo: não se misturava, não se deixava levar por artifícios de palavras que outros de seus pares pareciam estar sempre prontos a aceitar como verdade, não seguia modas, não levava em conta padrões de comportamento ditados pela sociedade a que pertencia. Talvez por isso fosse tão amado: por pretender ser feliz e dividir sua paixão pela vida com as pessoas – poucas – que ele aceitava em seus “domínios”, numa referência ao lugar que habitava, uma casa feita de caos e ordem. Seu universo, antes e depois da explosão. 

E, como o amor possui o seu reverso, Gregor era também alvo de ressentimentos de pessoas que provavelmente queriam ter a bravura de desafiar o medo e viver a vida, do jeito que ele fazia.

Gregor era um homossexual, um travesti. E quem o conheceu sabe dizer da magia, do encantamento de estar diante de um ser que não é um homem e não é uma mulher e que teve a coragem de ser dois. O que poderia explicar a complexidade do pensamento que toma conta de quem se deixa tocar pela excitação do  mistério quando o travesti está por perto?  Afirmar que a androginia suscita curiosidade seria levar a simplificação a um extremo perigoso.

Gregor, ao assumir os riscos (todos!), tornou-se mais completo, mais objeto do desejo de quem não vive a experiência do existir tão plenamente. Ele vivia assim, de maneira intensa, ainda que à beira do abismo, sempre.

E por ter tido a ousadia de correr riscos, e por acreditar no amor, e por não duvidar, Gregor viveu tanto que morreu. Morreu da doença do amor. Morreu da doença do não cuidar, do não desconfiar, do não aceitar que comigo-essas-coisas-não-acontecem. Afinal, eu conheço o meu parceiro.   

Gregor morreu e poderia não ter morrido. Mas morreu como homem, também na acepção correta da palavra. Era um “diferente”, homem-mulher, pessoa.  Parcela de minoria, sua história ainda atrai: porque ele, Gregor, em vida e na morte, travestiu-se de poesia. 

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Dia de vestibular

 

A garotinha da foto sobre o piano


Uma leve batida à porta. Entre, diz uma voz adolescente.

O quarto é uma desordem típica da idade: livros, bonecas, roupas, sapatos, jogados aqui e ali, como se nem fizessem parte do cenário. Duas camas paralelas registram o sonho desfeito de uma irmã, uma companheira que continuou o seu caminho, depois de uma breve parada. A irmã se foi, mas seu lugar permanece, agora nem mais por saudade ou desejo de retorno: apenas por hábito, costume, acomodação.

Os olhos que me recebem destoam da voz. Não é mais uma adolescente: é um corpo de mulher que está diante de mim. Alguém que nem parece ter o mesmo passado da garotinha da foto sobre o piano.

Seu olhar preocupado esparrama-se sobre um livro, na tentativa de reter as últimas informações, talvez desejoso de um milagre que lhe faça saber todas as lições estudadas até agora.

Está tensa; mas não se lhe pode tirar nem mesmo isso. Este momento é seu, faz parte da sua história e logo será parte também de suas lembranças. 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Educação ambiental: uma atividade



A INSERÇÃO DO TEMA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
NAS ESCOLAS
Foto: Sebastião Salgado - Páginas da internet

Contar da experiência de inserir temáticas relacionadas à educação ambiental nas escolas é uma tarefa que não me será possível cumprir, uma vez que não vivo essa experiência: posso contar, sim, de minhas percepções, do que observo, do que acaba chegando a mim pela vivência num ambiente educacional que não é uma escola.
Porém, quero relatar o que me ocorreu ao ler, dentre os textos indicados, os Parâmetros Curriculares Nacionais – Meio Ambiente.

Os desafios a enfrentar - Logo na página de APRESENTAÇÃO (169), no primeiro parágrafo, uma constatação conhecida de todos nós: “São grandes os desafios a enfrentar”. Segundo parágrafo, outra: “Os alunos podem ter nota 10 nas provas, mas, ainda assim, jogar lixo na rua, pescar peixes-fêmeas prontas para reproduzir, atear fogo no mato indiscriminadamente, ou realizar outro tipo de ação danosa...”. E, no terceiro parágrafo, a questão que deve angustiar a todos os seres conscientes da importância do cuidado com o nosso planeta: “Como é possível, dentro das condições concretas da escola, contribuir para que os jovens e adolescentes de hoje percebam e entendam as consequências ambientais de suas ações nos locais onde trabalham, jogam bola, enfim, onde vivem?”
Sabemos que as alterações no ambiente ocorrem como consequência do acelerado processo de desenvolvimento, e que as novas tecnologias – todas elas – possuem o seu lado perverso, o seu contraditório. E a lição que o homem precisa aprender, urgentemente, é como superar o desafio de concertar suas ações à constância  da evolução que é parte do nosso crescimento, como habitantes que somos de um mundo que está em processo de mudanças, sempre, desde sempre, para sempre.

Um outro modo de perceber o planeta: é isso que deve ser alterado na forma como (con)vivemos: a interação sociedade/natureza não está ocorrendo de modo a respeitar bens tão preciosos à manutenção de nossa vida. A especulação acerca de recursos naturais, o consumo em larga escala, a exploração desses bens: esses itens que atendem, em primeiríssimo lugar, às leis de mercado são utilizados como se esses benefícios que a natureza nos proporciona finitos não fossem.
E, embora pobreza, injustiça social, baixa qualidade de vida (a mim, são sinônimos) seja uma constante em toda a trajetória humana (desde seus primórdios), evidente que o descaso com questões ambientais potencializa esses problemas. Afinal, como já dito e repetido, a questão ambiental não trata apenas da água, da terra, do ar, do lixo: a questão ambiental permeia toda a atividade dos grupos humanos. E importa, acima de qualquer outra iniciativa, ter em mente que 

Transformar e aprimorar a relação entre os seres humanos e desses com o ambiente deve ser o maior objetivo da educação ambiental, lembrando que o termo “ambiente” é muito mais que o ambiente natural: incluímos também os modificados pelo homem, como as instituições sociais, a escola, o ambiente de trabalho, a vizinhança etc. (SEMAD, s/d)

Urge, pois, que sejam pensadas e levadas a efeito “alternativas que conciliem, na prática, a conservação da natureza com a qualidade de vida das populações que dependem dessa natureza” (PCN, p. 176). Afinal, conforme consta nas páginas dos PCNs, “a garantia efetiva da sustentabilidade exige uma profunda transformação da sociedade (e do sistema econômico do capitalismo industrial)” (PCN, p. 178). Essa transformação implicaria o “uso dos recursos renováveis de forma qualitativamente adequada e em quantidades compatíveis com sua capacidade de renovação”, e trariam no seu bojo “relações sociais que permitam qualidade adequada de vida para todos” (Id. Ib.).

A precisão das letras - Como pode ser observado até aqui, o texto dos PCNs relacionados ao meio ambiente trata, com a precisão das letras, do assunto. Mas deixa bem claro que “ainda não foi posta em prática boa parte dessas diretrizes e metas, principalmente as de grande escala, pois a competição no mercado internacional não permite” (PCN, p.178).
Um balde de água fria, um desencorajamento, sensação de impotência... Ah, melhor deixar para lá. Se um texto que vem para mostrar soluções, me diz que não é possível, devo cruzar os braços e esperar que gerações futuras resolvam o impasse (?)... E logo após (p. 180) afirma que “isso implica um novo universo de valores no qual a educação tem um importante papel a desempenhar.” Esse isso está relacionado à busca de novas formas de pensar e agir, novos modelos de produção de bens, garantia de sustentabilidade etc. Não parece que o “sistema” está se omitindo e transferindo responsabilidades? Ainda que a afirmativa colocada um pouco adiante relativize essa “transferência”: “Evidentemente, a educação sozinha não é suficiente para mudar os rumos do planeta, mas certamente é condição necessária para isso” (PCN, p. 181), fica um certo desconforto em quem lê.
Como faço parte do grupo meio démodé (até a palavra démodé é démodé!) dos últimos dos românticos, fiquei feliz ao ler no documento o seguinte: “Só quando se inclui também a sensibilidade, a emoção, sentimentos e energias se obtêm mudanças significativas de comportamento.” Três linhas adiante, uma assertiva que, num discurso coloquial, eu diria que “fechou”, “arrasou”: “É preciso então lidar com algo que nem sempre é fácil, na escola: o prazer” (PCN, p. 182). Após essa leitura, vieram à minha mente textos do Rubem Alves, para quem o prazer no ato de ensinar e no ato de aprender é essencial.

Pontos de discordância - Apreciei a leitura dos PCNs, hoje como estudo e não apenas leitura, embora com as ressalvas colocadas no texto. Devo ressaltar, no entanto, que discordo quando (p. 182) faz-se referência a preconceitos e “à veiculação de algumas imagens distorcidas sobre as questões relativas ao meio ambiente”, e se estabelecem alguns pontos de defesa. 

É um luxo e um despropósito defender, por exemplo, animais ameaçados de extinção, enquanto milhares de crianças morrem de fome ou de diarreia na periferia das grandes cidades, no Norte ou no Nordeste. (PCN, p.183)

Sim, eu concordo que é um luxo, em muitos casos. Vemos, por exemplo, um animal sendo amamentado (em mamadeira de verdade!) por uma equipe uniformizada, bem cuidada, em ambientes agradáveis sob o ponto de vista de decoração mesmo; e me pergunto: fariam o mesmo por uma criança?! E se uma criança de rua passa em frente a uma loja que vende televisores e assiste à cena? Como vai se sentir? Valendo menos que um bicho!
Se a educação (não apenas a da escola) fosse relevante (se tivesse sido ao longo dos séculos), o homem aprenderia a não destruir o planeta em prol de seus interesses financeiros e aí não teríamos animais em extinção. E nem teríamos tantas crianças abandonadas não sendo cuidadas com o interesse governamental (humanitário) que o caso exige.
Por isso, enfatizo que discordo quando o texto cita que “a situação das crianças no Brasil não compete com a situação de qualquer espécie ameaçada de extinção” (PCN, p.183.) A meu ver, compete sim!
As pessoas que sofrem privações econômicas são as maiores vítimas da mesma lógica que condena os animais à extinção e que condenará cada vez mais as crianças das próximas gerações: a lógica da acumulação da riqueza a qualquer custo, com exploração irrestrita da natureza e o desrespeito ao próprio ser humano. (PCN, p. 184)

Nem gostei de ler isso: colocou no mesmo “balaio de gato” (perdoem o trocadilho!) crianças e animais. De fato, uma bofetada na nossa (minha) cara.

Para finalizar, algumas considerações - O texto em si é bem interessante de ser lido e conduz você a alguma reflexão, qualquer que seja ela, mas sempre uma reflexão. Em páginas seguintes, trata da formação continuada do professor, de seu papel como orientador de condutas concernentes ao meio ambiente: enfim, uma gama de sugestões e de procedimentos. Como adequadamente fica registrado no texto: “eles (professores) também estão em processo de construção de saberes e de ações no ambiente, como qualquer cidadão” (PCN, p. 189).
Finalizo com um escrito constante da página 205 dos PCNs e que, segundo meu modo de pensar a educação (não apenas a ambiental), define bem a situação a acontecer no cotidiano, na escola, na vida:

É importante, por exemplo, que, ao observar a água de um riacho ou a que sai de uma torneira, os alunos se perguntem de onde ela vem, por onde passou e onde chegará e reflitam (...) e, acima de tudo, saibam que a qualidade dessa água está diretamente relacionada com as ações do ser humano. (PCN, p.105) 


Ou seja, um pensar filosófico...


Referências

ALVES, Rubem. Educação dos Sentidos e Mais… Campinas: Verus    Editora, 2005.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: meio ambiente. Brasília: MEC/SEF, 1997.

SEMAD – Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – Portal Meio Ambiente - MG. Educação ambiental para autotransformação.  Disponível em:
<http://www.semad.mg.gov.br/educacao-ambiental>. Acesso em: 1º nov. 2013.