quinta-feira, 2 de janeiro de 2014



A menina, a biblioteca e a fada-madrinha


Uma cidadezinha do interior de Minas, bem no interior mesmo (bem Minas mesmo!) e uma casa no alto, de onde se poderia ouvir o barulho dos caminhões que transitam (ainda) pela rodovia. Um pouco mais e seria uma casa à beira do asfalto.

A menina olha para aquilo tudo, para a diversidade de veículos indo e vindo, e, sem se dar conta de que está iniciando um processo de questionamentos que iria acompanhá-la pela vida afora, fica imaginando que existências teriam aqueles homens que dirigiam aqueles caminhões.

Ainda não sabia ler e escrever; mas ficava ansiosa para entender como juntar letras e formar palavras, num primeiro – e pleno de ansiedade – objetivo de saber que nomes teriam as cidades que via nas placas dos caminhões. Sim, era quase uma fixação; mas ela perdia horas cismando a respeito desses outros mundos que deveriam conter outras histórias, bem diferentes da sua, dessa que estava vivenciando naquela cidadezinha e que lhe era angustiante. Nem sabia por que motivo vivia com a sensação de não pertencer àquele mundo; não tinha idade para estar consciente dessas questões: sabia apenas que se sentia assim.

Quando começou a estudar, iniciou-se no processo de construir seu conhecimento: era, em essência, uma autodidata. Apaixonou-se pelas letras, pelos sons que as letras produziam ao serem pronunciadas, pelas palavras que elas “fabricavam”. Estava só nesse aprendizado, porque o pai era um viajante e a mãe uma acompanhante desse viajante; as empregadas nessa época eram quase sempre iletradas; a escola era pública; e não havia a preocupação de contratar professores particulares. Mas ela foi persistente na sua busca.

Começou a frequentar a biblioteca municipal da cidadezinha: um retângulo de paredes brancas, acanhado, de poucas prateleiras, mas com muitos livros: um local com janelas envidraçadas que permitia a entrada da luz do sol. Esse detalhe ela nunca esqueceu: a luz do sol tingindo de dourado um espaço que, para ela, já era iluminado. E, ao longo de sua caminhada, sempre que entrava em bibliotecas sombrias, ou clareadas por luzes artificiais, vinha-lhe sempre à mente a biblioteca de sua infância, tão cheia de luz...  Essa lembrança permaneceu para sempre.

A princípio, a menina entrava tímida naquele ambiente que lhe era sagrado; passeava pelos livros, tocava com extrema leveza a lombada de um ou outro, tentava sentir o cheiro... mas não se atrevia a tocá-los de fato, retirá-los da estante. Parecia-lhe um sacrilégio, quase uma profanação. Aquele templo merecia seu respeito místico, religioso mesmo. Permanecia em estado contemplativo diante da profusão de conhecimentos que supunha encontrar ali, entre tantas páginas.

A bibliotecária, de nome Alice, foi a fada-madrinha desse seu momento. Não fosse ela, com sua percepção, fosse outra, menos delicada, e uma parte da história de vida dessa criança talvez tivesse sido diferente, menos bela.

Estabeleceram uma relação de amizade, de troca de informações. Ela auxiliou no processo de aprendizagem, conduziu a garota pelos caminhos da leitura, foi o guia que a menina precisava para ser direcionada ao que queria. Indicou livros, falou de autores, comentou palavras novas encontradas nesse ou naquele texto. Falava docemente, mas com entusiasmo apaixonado. Era maravilhoso quando, ao aparecer, a menina ouvia: “olha, eu encontrei um livro que acho que você deveria ler”. E, ambas sorriam o sorriso do encantamento de desvendar o mistério do que estava ali se oferecendo a esse descobrimento.

Toda tarde, o momento mágico se fazia presente naquela vida de menina inquieta, de interioridade já despertada pela leitura, interesse nascido não se sabe onde, uma vez que na família foi sempre tida como “esquisita” por se dedicar tanto e tão profundamente aos livros. Livros que não possuía, mas que desejava ter num acervo que – sonhava – haveria de conseguir um dia.

Esse tempo de frequência à biblioteca existiu por um longo período. Ainda não existia a internet e suas possibilidades de busca rápida. Todas as pesquisas de escola eram elaboradas com muitas idas e vindas à/da biblioteca; muitos livros folheados; muitas perguntas à bibliotecária-fada-madrinha.

Após os conhecimentos adquiridos, e após a junção de tantas letras para ler as placas dos caminhões e das histórias contidas em cada veículo que, vistos através da janela de sua casa,  trafegava ali diante de seus olhos, não se sabe ao certo se essa menina chegou a ser feliz como pensava que seria. Sabe-se apenas que sua solidão teve um novo formato: tornou-se uma solidão acompanhada de livros, de muitos livros, de muitas histórias, tanto as vividas, quanto as que foram lidas e as que foram criadas pela sua imaginação.



Imaculada Vale – 17 de agosto de 2013

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