A menina, a biblioteca e a fada-madrinha
Uma cidadezinha do interior de Minas, bem no interior mesmo (bem
Minas mesmo!) e uma casa no alto, de onde se poderia ouvir o barulho dos
caminhões que transitam (ainda) pela rodovia. Um pouco mais e seria uma casa à
beira do asfalto.
A menina olha para aquilo tudo, para a diversidade de
veículos indo e vindo, e, sem se dar conta de que está iniciando um processo de
questionamentos que iria acompanhá-la pela vida afora, fica imaginando que existências
teriam aqueles homens que dirigiam aqueles caminhões.
Ainda não sabia ler e escrever; mas ficava ansiosa para
entender como juntar letras e formar palavras, num primeiro – e pleno de
ansiedade – objetivo de saber que nomes teriam as cidades que via nas placas
dos caminhões. Sim, era quase uma fixação; mas ela perdia horas cismando a
respeito desses outros mundos que deveriam conter outras histórias, bem
diferentes da sua, dessa que estava vivenciando naquela cidadezinha e que lhe
era angustiante. Nem sabia por que motivo vivia com a sensação de não pertencer
àquele mundo; não tinha idade para estar consciente dessas questões: sabia
apenas que se sentia assim.
Quando começou a estudar, iniciou-se no processo de construir
seu conhecimento: era, em essência, uma autodidata. Apaixonou-se pelas letras,
pelos sons que as letras produziam ao serem pronunciadas, pelas palavras que
elas “fabricavam”. Estava só nesse aprendizado, porque o pai era um viajante e
a mãe uma acompanhante desse viajante; as empregadas nessa época eram quase
sempre iletradas; a escola era pública; e não havia a preocupação de contratar
professores particulares. Mas ela foi persistente na sua busca.
Começou a frequentar a biblioteca municipal da cidadezinha:
um retângulo de paredes brancas, acanhado, de poucas prateleiras, mas com
muitos livros: um local com janelas envidraçadas que permitia a entrada da luz
do sol. Esse detalhe ela nunca esqueceu: a luz do sol tingindo de dourado um
espaço que, para ela, já era iluminado. E, ao longo de sua caminhada, sempre
que entrava em bibliotecas sombrias, ou clareadas por luzes artificiais,
vinha-lhe sempre à mente a biblioteca de sua infância, tão cheia de luz... Essa lembrança permaneceu para sempre.
A princípio, a menina entrava tímida naquele ambiente que lhe
era sagrado; passeava pelos livros, tocava com extrema leveza a lombada de um
ou outro, tentava sentir o cheiro... mas não se atrevia a tocá-los de fato,
retirá-los da estante. Parecia-lhe um sacrilégio, quase uma profanação. Aquele
templo merecia seu respeito místico, religioso mesmo. Permanecia em estado
contemplativo diante da profusão de conhecimentos que supunha encontrar ali,
entre tantas páginas.
A bibliotecária, de nome Alice, foi a fada-madrinha desse seu
momento. Não fosse ela, com sua percepção, fosse outra, menos delicada, e uma
parte da história de vida dessa criança talvez tivesse sido diferente, menos
bela.
Estabeleceram uma relação de amizade, de troca de
informações. Ela auxiliou no processo de aprendizagem, conduziu a garota pelos
caminhos da leitura, foi o guia que a menina precisava para ser direcionada ao
que queria. Indicou livros, falou de autores, comentou palavras novas
encontradas nesse ou naquele texto. Falava docemente, mas com entusiasmo
apaixonado. Era maravilhoso quando, ao aparecer, a menina ouvia: “olha, eu
encontrei um livro que acho que você deveria ler”. E, ambas sorriam o sorriso
do encantamento de desvendar o mistério do que estava ali se oferecendo a esse
descobrimento.
Toda tarde, o momento mágico se fazia presente naquela vida
de menina inquieta, de interioridade já despertada pela leitura, interesse
nascido não se sabe onde, uma vez que na família foi sempre tida como
“esquisita” por se dedicar tanto e tão profundamente aos livros. Livros que não
possuía, mas que desejava ter num acervo que – sonhava – haveria de conseguir um
dia.
Esse tempo de frequência à biblioteca existiu por um longo
período. Ainda não existia a internet e suas possibilidades de busca rápida. Todas
as pesquisas de escola eram elaboradas com muitas idas e vindas à/da
biblioteca; muitos livros folheados; muitas perguntas à bibliotecária-fada-madrinha.
Após os conhecimentos adquiridos, e após a junção de tantas
letras para ler as placas dos caminhões e das histórias contidas em cada
veículo que, vistos através da janela de sua casa, trafegava ali diante de seus olhos, não se
sabe ao certo se essa menina chegou a ser feliz como pensava que seria. Sabe-se
apenas que sua solidão teve um novo formato: tornou-se uma solidão acompanhada
de livros, de muitos livros, de muitas histórias, tanto as vividas, quanto as
que foram lidas e as que foram criadas pela sua imaginação.
Imaculada Vale – 17 de agosto de 2013
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