domingo, 26 de janeiro de 2014

Educação ambiental: uma atividade



A INSERÇÃO DO TEMA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
NAS ESCOLAS
Foto: Sebastião Salgado - Páginas da internet

Contar da experiência de inserir temáticas relacionadas à educação ambiental nas escolas é uma tarefa que não me será possível cumprir, uma vez que não vivo essa experiência: posso contar, sim, de minhas percepções, do que observo, do que acaba chegando a mim pela vivência num ambiente educacional que não é uma escola.
Porém, quero relatar o que me ocorreu ao ler, dentre os textos indicados, os Parâmetros Curriculares Nacionais – Meio Ambiente.

Os desafios a enfrentar - Logo na página de APRESENTAÇÃO (169), no primeiro parágrafo, uma constatação conhecida de todos nós: “São grandes os desafios a enfrentar”. Segundo parágrafo, outra: “Os alunos podem ter nota 10 nas provas, mas, ainda assim, jogar lixo na rua, pescar peixes-fêmeas prontas para reproduzir, atear fogo no mato indiscriminadamente, ou realizar outro tipo de ação danosa...”. E, no terceiro parágrafo, a questão que deve angustiar a todos os seres conscientes da importância do cuidado com o nosso planeta: “Como é possível, dentro das condições concretas da escola, contribuir para que os jovens e adolescentes de hoje percebam e entendam as consequências ambientais de suas ações nos locais onde trabalham, jogam bola, enfim, onde vivem?”
Sabemos que as alterações no ambiente ocorrem como consequência do acelerado processo de desenvolvimento, e que as novas tecnologias – todas elas – possuem o seu lado perverso, o seu contraditório. E a lição que o homem precisa aprender, urgentemente, é como superar o desafio de concertar suas ações à constância  da evolução que é parte do nosso crescimento, como habitantes que somos de um mundo que está em processo de mudanças, sempre, desde sempre, para sempre.

Um outro modo de perceber o planeta: é isso que deve ser alterado na forma como (con)vivemos: a interação sociedade/natureza não está ocorrendo de modo a respeitar bens tão preciosos à manutenção de nossa vida. A especulação acerca de recursos naturais, o consumo em larga escala, a exploração desses bens: esses itens que atendem, em primeiríssimo lugar, às leis de mercado são utilizados como se esses benefícios que a natureza nos proporciona finitos não fossem.
E, embora pobreza, injustiça social, baixa qualidade de vida (a mim, são sinônimos) seja uma constante em toda a trajetória humana (desde seus primórdios), evidente que o descaso com questões ambientais potencializa esses problemas. Afinal, como já dito e repetido, a questão ambiental não trata apenas da água, da terra, do ar, do lixo: a questão ambiental permeia toda a atividade dos grupos humanos. E importa, acima de qualquer outra iniciativa, ter em mente que 

Transformar e aprimorar a relação entre os seres humanos e desses com o ambiente deve ser o maior objetivo da educação ambiental, lembrando que o termo “ambiente” é muito mais que o ambiente natural: incluímos também os modificados pelo homem, como as instituições sociais, a escola, o ambiente de trabalho, a vizinhança etc. (SEMAD, s/d)

Urge, pois, que sejam pensadas e levadas a efeito “alternativas que conciliem, na prática, a conservação da natureza com a qualidade de vida das populações que dependem dessa natureza” (PCN, p. 176). Afinal, conforme consta nas páginas dos PCNs, “a garantia efetiva da sustentabilidade exige uma profunda transformação da sociedade (e do sistema econômico do capitalismo industrial)” (PCN, p. 178). Essa transformação implicaria o “uso dos recursos renováveis de forma qualitativamente adequada e em quantidades compatíveis com sua capacidade de renovação”, e trariam no seu bojo “relações sociais que permitam qualidade adequada de vida para todos” (Id. Ib.).

A precisão das letras - Como pode ser observado até aqui, o texto dos PCNs relacionados ao meio ambiente trata, com a precisão das letras, do assunto. Mas deixa bem claro que “ainda não foi posta em prática boa parte dessas diretrizes e metas, principalmente as de grande escala, pois a competição no mercado internacional não permite” (PCN, p.178).
Um balde de água fria, um desencorajamento, sensação de impotência... Ah, melhor deixar para lá. Se um texto que vem para mostrar soluções, me diz que não é possível, devo cruzar os braços e esperar que gerações futuras resolvam o impasse (?)... E logo após (p. 180) afirma que “isso implica um novo universo de valores no qual a educação tem um importante papel a desempenhar.” Esse isso está relacionado à busca de novas formas de pensar e agir, novos modelos de produção de bens, garantia de sustentabilidade etc. Não parece que o “sistema” está se omitindo e transferindo responsabilidades? Ainda que a afirmativa colocada um pouco adiante relativize essa “transferência”: “Evidentemente, a educação sozinha não é suficiente para mudar os rumos do planeta, mas certamente é condição necessária para isso” (PCN, p. 181), fica um certo desconforto em quem lê.
Como faço parte do grupo meio démodé (até a palavra démodé é démodé!) dos últimos dos românticos, fiquei feliz ao ler no documento o seguinte: “Só quando se inclui também a sensibilidade, a emoção, sentimentos e energias se obtêm mudanças significativas de comportamento.” Três linhas adiante, uma assertiva que, num discurso coloquial, eu diria que “fechou”, “arrasou”: “É preciso então lidar com algo que nem sempre é fácil, na escola: o prazer” (PCN, p. 182). Após essa leitura, vieram à minha mente textos do Rubem Alves, para quem o prazer no ato de ensinar e no ato de aprender é essencial.

Pontos de discordância - Apreciei a leitura dos PCNs, hoje como estudo e não apenas leitura, embora com as ressalvas colocadas no texto. Devo ressaltar, no entanto, que discordo quando (p. 182) faz-se referência a preconceitos e “à veiculação de algumas imagens distorcidas sobre as questões relativas ao meio ambiente”, e se estabelecem alguns pontos de defesa. 

É um luxo e um despropósito defender, por exemplo, animais ameaçados de extinção, enquanto milhares de crianças morrem de fome ou de diarreia na periferia das grandes cidades, no Norte ou no Nordeste. (PCN, p.183)

Sim, eu concordo que é um luxo, em muitos casos. Vemos, por exemplo, um animal sendo amamentado (em mamadeira de verdade!) por uma equipe uniformizada, bem cuidada, em ambientes agradáveis sob o ponto de vista de decoração mesmo; e me pergunto: fariam o mesmo por uma criança?! E se uma criança de rua passa em frente a uma loja que vende televisores e assiste à cena? Como vai se sentir? Valendo menos que um bicho!
Se a educação (não apenas a da escola) fosse relevante (se tivesse sido ao longo dos séculos), o homem aprenderia a não destruir o planeta em prol de seus interesses financeiros e aí não teríamos animais em extinção. E nem teríamos tantas crianças abandonadas não sendo cuidadas com o interesse governamental (humanitário) que o caso exige.
Por isso, enfatizo que discordo quando o texto cita que “a situação das crianças no Brasil não compete com a situação de qualquer espécie ameaçada de extinção” (PCN, p.183.) A meu ver, compete sim!
As pessoas que sofrem privações econômicas são as maiores vítimas da mesma lógica que condena os animais à extinção e que condenará cada vez mais as crianças das próximas gerações: a lógica da acumulação da riqueza a qualquer custo, com exploração irrestrita da natureza e o desrespeito ao próprio ser humano. (PCN, p. 184)

Nem gostei de ler isso: colocou no mesmo “balaio de gato” (perdoem o trocadilho!) crianças e animais. De fato, uma bofetada na nossa (minha) cara.

Para finalizar, algumas considerações - O texto em si é bem interessante de ser lido e conduz você a alguma reflexão, qualquer que seja ela, mas sempre uma reflexão. Em páginas seguintes, trata da formação continuada do professor, de seu papel como orientador de condutas concernentes ao meio ambiente: enfim, uma gama de sugestões e de procedimentos. Como adequadamente fica registrado no texto: “eles (professores) também estão em processo de construção de saberes e de ações no ambiente, como qualquer cidadão” (PCN, p. 189).
Finalizo com um escrito constante da página 205 dos PCNs e que, segundo meu modo de pensar a educação (não apenas a ambiental), define bem a situação a acontecer no cotidiano, na escola, na vida:

É importante, por exemplo, que, ao observar a água de um riacho ou a que sai de uma torneira, os alunos se perguntem de onde ela vem, por onde passou e onde chegará e reflitam (...) e, acima de tudo, saibam que a qualidade dessa água está diretamente relacionada com as ações do ser humano. (PCN, p.105) 


Ou seja, um pensar filosófico...


Referências

ALVES, Rubem. Educação dos Sentidos e Mais… Campinas: Verus    Editora, 2005.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: meio ambiente. Brasília: MEC/SEF, 1997.

SEMAD – Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – Portal Meio Ambiente - MG. Educação ambiental para autotransformação.  Disponível em:
<http://www.semad.mg.gov.br/educacao-ambiental>. Acesso em: 1º nov. 2013.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ainda vou fazer um poster desta imagem e colocar numa parede de minha casa...

(Imagem da internet)

Uma amiga me enviou o texto abaixo em algum momento...
Encontrei hoje, perdido nas minhas páginas virtuais...
Obrigada, Morgana!

"Não consigo molhar os pés apenas
eu mergulho e só paro quando me afogo
eu me queimo e só paro quando derreto
eu me jogo e só paro quando me param."
Martha Medeiros, jornalista
Se tiver ânimo e começar, acaba se tornando um hábito...

Meditação atenciosa


Trata-se se uma técnica simples de desencadear um estado de relaxamento profundo de corpo e mente. À medida que a mente se aquieta ¾ e permanece desperta ¾ você vai se beneficiar de um estado de consciência mais profundo e tranquilo.

1.. Antes de começar, encontre um local silencioso em que não vá ser perturbado.

2.. Sente-se e feche os olhos.

3.. Concentre-se na respiração, mas inspire e expire normalmente. Não tente controlar ou alterar a respiração deliberadamente. Apenas observe.

4.. Ao observar a respiração, vai ver que ela muda. Haverá variações na velocidade, no ritmo e na profundidade, e pode ser que ela pare por um momento. Não tente provocar nenhuma alteração. Novamente, apenas observe.

5.. Pode ser que você se desconcentre de vez em quando, pensando em outras coisas ou prestando atenção aos ruídos externos. Se isso acontecer, desvie a atenção para a respiração.

6.. Se durante a meditação você perceber que está se concentrando em algum sentimento ou expectativa, simplesmente volte a prestar atenção na respiração.

7.. Pratique esta técnica durante quinze minutos. Ao final, mantenha os olhos fechados e permaneça relaxado por dois ou três minutos. Saia do estado de meditação gradualmente, abra os olhos e assuma sua rotina.

Sugiro a prática da meditação atenciosa duas vezes ao dia, de manhã e no final da tarde. Se estiver irritado ou agitado, pode praticá-la por alguns minutos no meio do dia para recuperar o eixo.

Na prática da meditação você vai por uma de três experiências. Mas deve resistir à tentação de avaliar a experiência ou sua capacidade de seguir as instruções, porque as três reações são "corretas".

Você pode se sentir entediado ou inquieto, e a mente vai se encher de pensamentos. Isso significa que emoções profundas estão sendo liberadas. Se relaxar e continuar a meditar, vai eliminar essas influências do corpo e da mente.

Você pode cair no sono. Se isso acontecer durante a meditação, é sinal de que você anda precisando de mais horas de descanso.

Você pode entrar no intervalo dos pensamentos. .. além do som e da respiração.

Se descansar o suficiente, mantiver a boa saúde e devotar-se todos os dias à meditação, você vai conseguir um contato significativo com o self. Vai poder se comunicar com a mente cósmica, a voz que fala sem palavras e que está sempre presente nos intervalos entre um pensamento e outro. Essa é a sua inteligência superior ilimitada, seu gênio supremo e verdadeiro, que, por sua vez, reflete a sabedoria do universo. Tudo estará a seu alcance se confiar na sabedoria interior.

Do livro: Saúde Perfeita
Dr. Deepak Chopra - Editora Best Seller.

Gota

Esta imagem remete a algo que fere...aprisiona...
No entanto, essa gota faz toda a diferença...
Foi a Berenice que encontrou um dia...buscando imagens na net...
Uma imagem que amo... sempre esqueço o criador... Fabian Perez? Creio que o nome é este: Fabian Perez.

O texto da Verônica

Uma amiga, de nome Verônica, escreveu um texto e permitiu que seja postado.
Então, vamos lá, Verônica...
Agradeço.
Eis a Verônica, em vermelho,
que é minha cor favorita...

Amparensês

Conversando dia desses, por telefone, com uma amiga, pronunciei o adjetivo “custoso”, termo que achou inusitado, dizendo-me que sua utilização era típica da minha cidade e não dos outros lugares.
Surpreendida, perguntei a ela se por acaso a palavra não existia. Ela me disse que havia tal adjetivo, mas que ela só ouvia com frequência no município de Santo Antônio do Amparo.
De certa forma, a localidade – aos olhos da minha amiga – compôs-se de uma população consuetudinária, ao menos no “custosismo”.
Por falar nisso, volto ao telefonema e provo como os amparenses realmente exploram esse vocábulo: no momento em que nos despedimos “da conversa a distância”, minha colega me pediu para escrever sobre esse tema, já que ela muitas vezes havia ouvido a pronúncia por seus irmãos, cunhadas e por mim ao telefone. Eu argumentei que falar da expressão “custoso” era demasiado “custoso”, pelo fato da escassez de tempo, e acabou ficando nisso.
Depois de um tempo, como se não bastasse, deparo com minha irmã na sala da minha casa comentando que a repórter do programa de TV era “custosa”. Achei isso hilário e não teve outro jeito senão escrever sobre a típica expressão do município.
Para fortalecer ainda mais minha “custosa” tese, essa mania amparense é tão contundente no dia-a-dia da cidade que existe aqui um bloco carnavalesco composto de mulheres, com abadá e tudo, com qual nome? Adivinhe se puder, caro leitor!
Enfim, para registrar e divulgar a etimologia da palavrinha patenteada, eis abaixo a própria definida regionalmente: custoso: adj. Pessoa ou coisa difícil de lidar; embaraçoso, obscuro. Claro que o adjetivo é dinâmico e passível de mutação, de acordo com os ares do local.
Que tal globalizarmos essa idéia da “custosisse” amparense?
Até a próxima!
Verônica, 26/10/2010

 EMBRIAGAI-VOS

 É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e voz faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge,
a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos;
embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Baudelaire

Crianças invisíveis

Este filme não é indicado para quem não quer pensar...
Deveria ser obrigatório nas escolas...
Bom observar que algumas crianças, ainda que não vivenciem situações tão extremas quanto as retratadas nos sete episódios,
podem também não estar sendo vistas de fato...
Podem ser as nossas crianças, as que estão em nossa casa, na casa do nosso vizinho...

Song Song, a menina rica - Imagem da internet
http://revistaplop.blogspot.com.br/2010/08/critica-do-filme-criancas-invisiveis.html 


A menina, a biblioteca e a fada-madrinha


Uma cidadezinha do interior de Minas, bem no interior mesmo (bem Minas mesmo!) e uma casa no alto, de onde se poderia ouvir o barulho dos caminhões que transitam (ainda) pela rodovia. Um pouco mais e seria uma casa à beira do asfalto.

A menina olha para aquilo tudo, para a diversidade de veículos indo e vindo, e, sem se dar conta de que está iniciando um processo de questionamentos que iria acompanhá-la pela vida afora, fica imaginando que existências teriam aqueles homens que dirigiam aqueles caminhões.

Ainda não sabia ler e escrever; mas ficava ansiosa para entender como juntar letras e formar palavras, num primeiro – e pleno de ansiedade – objetivo de saber que nomes teriam as cidades que via nas placas dos caminhões. Sim, era quase uma fixação; mas ela perdia horas cismando a respeito desses outros mundos que deveriam conter outras histórias, bem diferentes da sua, dessa que estava vivenciando naquela cidadezinha e que lhe era angustiante. Nem sabia por que motivo vivia com a sensação de não pertencer àquele mundo; não tinha idade para estar consciente dessas questões: sabia apenas que se sentia assim.

Quando começou a estudar, iniciou-se no processo de construir seu conhecimento: era, em essência, uma autodidata. Apaixonou-se pelas letras, pelos sons que as letras produziam ao serem pronunciadas, pelas palavras que elas “fabricavam”. Estava só nesse aprendizado, porque o pai era um viajante e a mãe uma acompanhante desse viajante; as empregadas nessa época eram quase sempre iletradas; a escola era pública; e não havia a preocupação de contratar professores particulares. Mas ela foi persistente na sua busca.

Começou a frequentar a biblioteca municipal da cidadezinha: um retângulo de paredes brancas, acanhado, de poucas prateleiras, mas com muitos livros: um local com janelas envidraçadas que permitia a entrada da luz do sol. Esse detalhe ela nunca esqueceu: a luz do sol tingindo de dourado um espaço que, para ela, já era iluminado. E, ao longo de sua caminhada, sempre que entrava em bibliotecas sombrias, ou clareadas por luzes artificiais, vinha-lhe sempre à mente a biblioteca de sua infância, tão cheia de luz...  Essa lembrança permaneceu para sempre.

A princípio, a menina entrava tímida naquele ambiente que lhe era sagrado; passeava pelos livros, tocava com extrema leveza a lombada de um ou outro, tentava sentir o cheiro... mas não se atrevia a tocá-los de fato, retirá-los da estante. Parecia-lhe um sacrilégio, quase uma profanação. Aquele templo merecia seu respeito místico, religioso mesmo. Permanecia em estado contemplativo diante da profusão de conhecimentos que supunha encontrar ali, entre tantas páginas.

A bibliotecária, de nome Alice, foi a fada-madrinha desse seu momento. Não fosse ela, com sua percepção, fosse outra, menos delicada, e uma parte da história de vida dessa criança talvez tivesse sido diferente, menos bela.

Estabeleceram uma relação de amizade, de troca de informações. Ela auxiliou no processo de aprendizagem, conduziu a garota pelos caminhos da leitura, foi o guia que a menina precisava para ser direcionada ao que queria. Indicou livros, falou de autores, comentou palavras novas encontradas nesse ou naquele texto. Falava docemente, mas com entusiasmo apaixonado. Era maravilhoso quando, ao aparecer, a menina ouvia: “olha, eu encontrei um livro que acho que você deveria ler”. E, ambas sorriam o sorriso do encantamento de desvendar o mistério do que estava ali se oferecendo a esse descobrimento.

Toda tarde, o momento mágico se fazia presente naquela vida de menina inquieta, de interioridade já despertada pela leitura, interesse nascido não se sabe onde, uma vez que na família foi sempre tida como “esquisita” por se dedicar tanto e tão profundamente aos livros. Livros que não possuía, mas que desejava ter num acervo que – sonhava – haveria de conseguir um dia.

Esse tempo de frequência à biblioteca existiu por um longo período. Ainda não existia a internet e suas possibilidades de busca rápida. Todas as pesquisas de escola eram elaboradas com muitas idas e vindas à/da biblioteca; muitos livros folheados; muitas perguntas à bibliotecária-fada-madrinha.

Após os conhecimentos adquiridos, e após a junção de tantas letras para ler as placas dos caminhões e das histórias contidas em cada veículo que, vistos através da janela de sua casa,  trafegava ali diante de seus olhos, não se sabe ao certo se essa menina chegou a ser feliz como pensava que seria. Sabe-se apenas que sua solidão teve um novo formato: tornou-se uma solidão acompanhada de livros, de muitos livros, de muitas histórias, tanto as vividas, quanto as que foram lidas e as que foram criadas pela sua imaginação.



Imaculada Vale – 17 de agosto de 2013