quinta-feira, 30 de agosto de 2018


Travestindo a realidade 

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(Imagem Internet)

Gregor era um indivíduo na acepção mais correta do vocábulo: não se misturava, não se deixava levar por artifícios de palavras que outros de seus pares pareciam estar sempre prontos a aceitar como verdade, não seguia modas, não levava em conta padrões de comportamento ditados pela sociedade a que pertencia. Talvez por isso fosse tão amado: por pretender ser feliz e dividir sua paixão pela vida com as pessoas – poucas – que ele aceitava em seus “domínios”, numa referência ao lugar que habitava, uma casa feita de caos e ordem. Seu universo, antes e depois da explosão. 

E, como o amor possui o seu reverso, Gregor era também alvo de ressentimentos de pessoas que provavelmente queriam ter a bravura de desafiar o medo e viver a vida, do jeito que ele fazia.

Gregor era um homossexual, um travesti. E quem o conheceu sabe dizer da magia, do encantamento de estar diante de um ser que não é um homem e não é uma mulher e que teve a coragem de ser dois. O que poderia explicar a complexidade do pensamento que toma conta de quem se deixa tocar pela excitação do  mistério quando o travesti está por perto?  Afirmar que a androginia suscita curiosidade seria levar a simplificação a um extremo perigoso.

Gregor, ao assumir os riscos (todos!), tornou-se mais completo, mais objeto do desejo de quem não vive a experiência do existir tão plenamente. Ele vivia assim, de maneira intensa, ainda que à beira do abismo, sempre.

E por ter tido a ousadia de correr riscos, e por acreditar no amor, e por não duvidar, Gregor viveu tanto que morreu. Morreu da doença do amor. Morreu da doença do não cuidar, do não desconfiar, do não aceitar que comigo-essas-coisas-não-acontecem. Afinal, eu conheço o meu parceiro.   

Gregor morreu e poderia não ter morrido. Mas morreu como homem, também na acepção correta da palavra. Era um “diferente”, homem-mulher, pessoa.  Parcela de minoria, sua história ainda atrai: porque ele, Gregor, em vida e na morte, travestiu-se de poesia. 

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