Travestindo
a realidade
(Imagem Internet)
Gregor era um indivíduo na acepção mais correta do
vocábulo: não se misturava, não se deixava levar por artifícios de palavras que
outros de seus pares pareciam estar sempre prontos a aceitar como verdade, não
seguia modas, não levava em conta padrões de comportamento ditados pela
sociedade a que pertencia. Talvez por isso fosse tão amado: por pretender ser
feliz e dividir sua paixão pela vida com as pessoas – poucas – que ele aceitava
em seus “domínios”, numa referência ao lugar que habitava, uma casa feita de
caos e ordem. Seu universo, antes e depois da explosão.
Gregor era um homossexual, um
travesti. E quem o conheceu sabe dizer da magia, do encantamento de estar
diante de um ser que não é um homem e não é uma mulher e que teve a coragem de
ser dois. O que poderia explicar a complexidade do pensamento que toma conta de
quem se deixa tocar pela excitação do
mistério quando o travesti está por perto? Afirmar que a androginia suscita curiosidade
seria levar a simplificação a um extremo perigoso.
Gregor, ao assumir os riscos (todos!),
tornou-se mais completo, mais objeto do desejo de quem não vive a experiência
do existir tão plenamente. Ele vivia assim, de maneira intensa, ainda que à
beira do abismo, sempre.
E por ter tido a ousadia de
correr riscos, e por acreditar no amor, e por não duvidar, Gregor viveu tanto
que morreu. Morreu da doença do amor. Morreu da doença do não cuidar, do não desconfiar,
do não aceitar que comigo-essas-coisas-não-acontecem. Afinal, eu conheço o meu
parceiro.
Gregor morreu e poderia não ter
morrido. Mas morreu como homem, também na acepção correta da palavra. Era um
“diferente”, homem-mulher, pessoa.
Parcela de minoria, sua história ainda atrai: porque ele, Gregor, em vida
e na morte, travestiu-se de poesia.
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